Diz-me o que vestes, dir-te-ei quem és

A consultoria de imagem é um serviço de aconselhamento personalizado, centrado na imagem pessoal / profissional do cliente. É a visão do consultor sobre as melhores opções de roupa, cores,  padrões, texturas, marcas, acessórios, corte de cabelo e maquilhagem para a vida real. E por melhores opções, entenda-se o que melhor transmite os objectivos do cliente. Falei sobre este tema aqui.

Tudo o que rodeia o corpo e o projecta para o exterior é uma forma de comunicação. Assume-se como linguagem e é interpretada POR TODA A GENTE. Passamos a vida a tirar conclusões e a pensar em aspectos sobre o outro com base na forma como se apresenta e, na maior parte das vezes, fazêmo-lo de modo inconsciente. Umas vezes acertamos, outras não. Há pessoas exímias na arte de criar aparências e de nos levar a acreditar em aspectos que de verdadeiro têm pouco.

Mesmo para quem não goste de dar importância ao tema e se negue a pensar no assunto por mais de 30 segundos, tudo aquilo que usamos não é fruto de um mero acaso. Não é despojado de sentido. As escolhas de cada pessoa têm uma história. Até para quem se veste em piloto automático todas as manhãs, aquilo que há lá em casa para usar foi escolhido com um critério.

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O que gostamos ou não gostamos de usar está relacionado com o que nos marcou algures na infância, na adolescência ou até no início da vida adulta. Vou dar quatro exemplos:

  1. A farda da escola onde andei em Moscovo nos anos 80, fez com que o castanho fosse uma cor inexistente no meu guarda-roupa actual.
  2. As socas brancas de enfermeira que uma cliente usou durante 20 anos, criaram-lhe uma aversão a sapatos claros.
  3. Os fatos de macaco que outra cliente tem que usar durante seis meses por ano na plataforma de petróleo onde trabalha, fazem com que sinta uma necessidade de usar stilettos e peças ultra-femininas nos outros seis meses livres que tem.
  4. O blazer de lantejoulas que um amigo músico tinha que usar quando era mais jovem e tocava em bailaricos na província, fez nascer um ódio por tudo o que são tecidos brilhantes.

Estes pequenos exemplos definem alguns aspectos do gosto de cada um. Surgem de uma imposição que em nenhum dos casos agradava e isso deixou a sua marca.

E é assim que se vai construindo o estilo pessoal que é sempre a soma de elementos:

  1. referências boas do passado (membros da família, amigos, ídolos)
  2. zona de conforto (o que nos agrada ou não)
  3. relação com o corpo (que aspectos preferimos evidenciar ou camuflar)
  4. estado da auto-estima (desde o “Não quero que ninguém me veja” até ao “Cheguei!”)
  5. interesses recentes que possam despertar a atenção (tendências ou influências de amigos)
  6. a forma como queremos de ser vistos pelos outros

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As pessoas que vou conhecendo e que querem transmitir a mensagem de que “não se importam minimamente com a roupa”, têm uma forma de o dizer através daquilo que usam e da maneira como coordenam as peças. Há aspectos nessa escolha que podem indicar que a sua maior preocupação é, por exemplo, o conforto e nada mais. E escolhem a roupa e os sapatos em conformidade – materiais mais naturais, cores neutras, peças simples com cortes “normais”, nada que brilhe muito ou tenha cores eléctricas. Nunca saltos altos no caso das mulheres. Em alguns casos, chego a reparar que gostam de passar a sensação de uma ligeira descoordenação geral – nas cores e nas formas da roupa, através do cabelo mais ou menos desalinhado, pela ausência de maquilhagem. Estes são alguns sinais que nos transmitem a preocupação com o lado prático e o abandono de preocupações estéticas, que consideram fúteis e exageradas (daí a tal descoordenação, que de inocente e espontânea tem pouco.). A mensagem que pretendem passar é que o valor do ser humano está no interior e não na aparência. (E acredito que todos nós concordamos, certo?) Mas esta mensagem é passada através da imagem pessoal, num primeiro contacto com o outro. É a ferramenta de comunicação simbólica, a mais imediata. E ainda da experiência que vou tendo, infelizmente, acabam por ser estas as pessoas mais preconceituosas e que mais criticam todos aqueles que não se apresentam da mesma forma, o que é bastante contraditório, do meu ponto de vista.

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O acto de vestir, tem sentidos diferentes para cada pessoa. Ao longo dos anos, tenho vindo a encontrar pontos em comum.

Para algumas pessoas, a roupa funciona como um manto de invisibilidade. Quanto mais se confundirem com a multidão, melhor. Nada de muitas cores, nada de corpo à mostra. O problema até costuma ser esse – o descontentamento com a aparência física e uma baixa auto-estima. O querer tapar tudo para que ninguém veja as supostas imperfeições leva a que muitas clientes (mais magrinhas ou mais gordinhas) sintam uma insatisfação brutal e que procurem soluções-penso-rápido para a situação. Os acessórios e a maquilhagem costumam ser os elementos mais requisitados nestes casos. O que gostava de aconselhar, mais do que uma consultoria de imagem, seria mesmo um psicólogo / psicoterapeuta / psiquiatra. Há temas delicados que têm que ser resolvidos com terapia. Com uma aceitação que venha de dentro para fora. Por mais que a consultoria ajude no aspecto da melhoria da auto-estima, quando há níveis de descontentamento verdadeiramente profundos, o tema tem que ser resolvido por profissionais de outra área.

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Outro perfil com que me vou cruzando é o das pessoas que se preocupam, acima de tudo, com a adequação. Tenho muitas clientes que querem ser vistas de uma forma “correcta”, ajustada e perfeita, sempre apropriada às diferentes situações. Detecto aqui algumas inseguranças a nível pessoal. O querer agradar de forma desmedida a todos pode significar que não estamos a agradar primeiro a quem mais importa – a nós próprios. A necessidade de aprovação por parte do exterior funciona como uma alavanca para que o cliente se tente aceite melhor a si mesmo. Infelizmente, noto muito mais este aspecto nas mulheres do que nos homens.

Há ainda as pessoas para quem o vestir pode agregar a componente do sonho e da projecção. Compram-se peças de roupa ou acessórios que não têm nada ver com a vida real, mas sim com aquela que se gostaria de ter. E assim se constroem guarda-roupas frustrantes e que são cabides de más lembranças. Novamente os exemplos:

  1. Vou comprar isto para usar quando fizer aquela viagem de sonho.
  2. Vou comprar isto para usar quando emagrecer e assim fico motivada e faço dieta.
  3. Vou comprar isto porque dá sempre jeito ter uns sapatos pretos de salto alto.
  4. Vou comprar isto porque é uma das peças-chave que TODA A GENTE TEM QUE TER. (Este tema há-de ser desenvolvido e desmistificado em breve).
  5. Vou comprar isto porque está baratíssimo e até levo em mais do que uma cor.

Posso imaginar alguns sorrisos cúmplices desse lado, de quem se reviu em alguns dos pontos apresentados. Talvez este perfil seja um dos mais fáceis de aconselhar. Com objectividade, tudo se resolve.

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Há ainda outros exemplos que posso referir – pessoas para quem ter peças de determinadas marcas é muito importante. Aqui falamos da questão do status que as marcas podem dar e dos valores que cada cliente quer incorporar e transmitir ao usá-las. É uma forma tão válida como outra qualquer nestas coisas do vestir e toda a gente faz um pouco isto. E o storytelling de algumas marcas é exímio em criar desejo nos consumidores.

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Pessoas para quem a roupa é sinónimo de juventude. Quando há dificuldade em aceitar que o tempo está a passar e que vamos envelhecendo, noto que quem não lida bem com esse aspecto, procura manter-se fiel a peças semelhantes às que são usadas por jovens na casa dos vinte e tal. É quase como querer congelar o avançar do tempo com roupas de cortes mais justos, mais curtos e mais coloridas. Por vezes, reparamos ali em qualquer coisa um pouco forçada, o que nem sempre é favorável. Ainda assim, é uma abordagem que se deve respeitar. Noto que na maior parte dos casos, é adoptada por quem saiu de relações ou procura um novo amor. (Comunicação outra vez!). Na minha opinião, pode resultar muito bem quando as pessoas se sentem bem dentro da roupa e tudo tem um ar natural. Não acredito em roupas certas conforme a idade. Acredito em roupas certas conforme a pessoa.

Na Blossom, a perspectiva que adoptamos com clientes e que passamos aos nossos alunos é a da importância de uma visão personalizada e realista sobre aquilo que vamos aconselhar a cada pessoa.

Todas estas ideias vão ser apresentadas no próximo curso de Estilo Pessoal e são também discutidas nos cursos de consultoria de imagem. Há outras formas de olhar para o tema e a partilha que habitualmente acontece durante as aulas é verdadeiramente enriquecedora e dinâmica. Mais do que isso, tem utilidade prática porque ajuda a repensar a relação que cada aluna tem com o seu guarda-roupa e com a forma como se relaciona com o acto de vestir. O convite fica feito e as inscrições ainda estão a decorrer.

Mais informações aqui.

 

2 ideias sobre “Diz-me o que vestes, dir-te-ei quem és

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